Isso não é uma resenha – “Todos os Belos Cavalos”

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“Todos os Belos Cavalos”, Cormac McCarthy – O sonho e a realidade

Muito diferente do “ A Estrada” publicado pela Editora Alfaguara, obra crua de um futuro sem perspectiva, onde um pai aprende todos os dias com seu filho a sobreviver no caos. Virou filme, aterrador, cru, infinitamente belo, mas com cenas tão assustadores, escuros, crus. Mas lógico o livro é infinitamente melhor que o filme e claro, muitas camadas para discussão.

Mas iremos discutir, “ Todos os belos cavalos”, escrito em 1992, ambientado em 1949 e também publicado pela Editora Alfaguara em 2017. É totalmente diferente d ” A Estrada”. Ele é magnífico, uma ode aos vaqueiros do velho oeste.  Traz cenas de travessia, de busca pela liberdade, de respeito pela natureza. 

É o primeiro livro da “ Trilogia Fronteira”, ganhador do Prêmio National Book.

O épico western – a busca do ideário

Os cavalos selvagens são subjugados não pela força mas pelo equilíbrio, pelo respeito. Totalmente diferente do aspecto sanguinário do ideário presente em vários filmes de western, infelizmente não mais conhecidos por essa nova geração.

O livro se inicia com a morte. Dialético não ? A morte do avô. Ele quem incorpora toda vida bruta e sacrificada do ícone – cowboy, irrompendo vários desequilíbrios que se arrastam ao envelhecer. A realidade maior que a força, o progresso. O acúmulo de dívidas, a falta de investimentos faz com que a filha, mãe de John Grady Cole, decida pela venda da fazenda.

John obviamente apaixonado pela atmosfera e a rotina, roga à mãe que o deixe gerenciar a fazenda, mas, ela nega. A ausência do pai durante toda sua vida, ter se casado com vaqueiro e vivenciado sua decadência, casando com vaqueiro, pai de John, hoje divorciados.

Atua como atriz na cidade grande não tendo qualquer interesse na administração da fazenda e sua rotina. John foi criado pela abuela, empregada da fazenda, tendo os dois pais distantes.

Pelo convívio com o avô e morar na fazenda, ama tudo relacionado a cavalos, a rotina, a captura de cavalos selvagens, seu treinamento e a venda.

Por não concordar com a venda, John Grady decide partir com seu primo Lacey Rawlins, decidem partir para trabalhar no México _ ambiente ainda sobrevivente do rancho de criação de cavalos.

Viajamos com eles,

Viajamos com eles, pelas paisagens do sul dos Estados Unidos, norte do México e a flagrante alteração de paisagem social.

Sentimos o balanço do cavalo, o sol, o vento. Vemos as estrelas.

“Todos os belos cavalos” é uma jornada atemporal na busca da literatura que há na vida real.

E são nessas cavalgadas que somos trazidos à realidade, quando os cavalos tem de cruzar rodovias, ou andar ao lado de caminhões e ônibus, assustando-se, lógico. Linda cena de choque de realidade.

No México, conseguem trabalho numa grande fazenda de cavalos, Capturam cavalos selvagens para treiná-los, tornando-os mansos aptos para cavalgada.

Mas a pergunta que fica é,

para quê ?

Eles não tem mais a função e a importância que tinham antes.

A VIDA REAL ESCOLHIDA

A travessia de John  Grady Cole e Rawlins tem várias reviravoltas. Desde acolher um novo parceiro de estrada, sem ter sequer conhecimento de seu nome real ou paradeiro. Apenas a herança do companheirismo.

Do selvagem, do bucólico ao corrupto sistema do homem. Sobrevive. E mais maduro, busca reparação com o ideário de justiça dos bravos.

Ao amadurecer, reconhece o valor da perda, assim como seu pai, sua referência de vida. O seu encantamento pelas montanhas, pela travessia em si, para sempre perdido dentro da ordem social humana, não é articulado em palavras – só é alcançado por essa qualidade mítica que o cavalo representa, que Joe Grady incorpora e McCarthy expressa.

Independe do sistema policial corrupto reflexo do interesse dos cidadãos de interesse, John Grady busca sua reparação ao velho estilo western e, reconhecido por aqueles que como ele, respeitam as velhas e boas regras da vida, da honra.

Quando reencontra seu cavalo, ele o reconhece, mostra contentamento em encontrá-lo, demonstra ter tido saudades. É sua recompensa pela luta no resgate de todos os belos cavalos.

É muito menos violento que seus outros livros. Mas podemos dizer que a violência não é tão importante para se entender o universo discutido na obra.

A violência reflete a luta do personagem e suas cicatrizes seu amadurecimento para a vida adulta.   

Quando a nostalgia se torna a sua realidade.

Como leitora

À primeira vista e numa leitura rápida, não se apreende toda a sua importância. Mas, fica-se dias com suas cenas, as paisagens, os sonhos de John Grady.

Todos os personagens, cada uma seu modo, sem guarida no mundo se movendo contra uma paisagem natural indiferente ao seu sofrimento, a busca, a todos os belos cavalos.

Seus livros já estão fora de catálogo. Indico o incrível “ Meridiano de Sangue”, listado pelo crítico Harold Bloom como uma das obras fundamentais da literatura americana no século 20; “ Onde os velhos não tem vez” virou filme dirigido por Ethan e Joel Cohen com Javier Barden, 2007  sob título “ Onde os fracos não tem vez”. 

Uma bela análise é a feita por Francisco Romário Nunes, UFBA, ” Identidades em Fronteiras: O romance ” All the pretty horses”, de Cormac McCarthy_ http://uece.br/eventos/jihlfeclesc/anais/trabalhos_completos/363-456-12112017-102043.pdf.

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